27/10/2026

US$ 143,3 bilhões! Comércio Brasil–China bate novo recorde

Soja, petróleo e minério seguem como âncoras; sorgo, espodumênio e veículos eletrificados abrem novas frentes

Nos primeiros nove meses de 2026, as exportações brasileiras para a China, as importações de produtos chineses e o comércio bilateral total atingiram recordes históricos simultâneos. A China segue como maior mercado de exportação e principal fonte de importações do Brasil, e a relação econômica entre os dois países entra em uma nova fase de profundidade e diversificação.

Segundo relatório do Conselho Empresarial Brasil–China (CEBC), com base em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), de janeiro a setembro as exportações brasileiras para a China cresceram 12%, alcançando US$ 84,7 bilhões; as importações avançaram 9,9%, somando US$ 58,6 bilhões; o comércio bilateral total chegou a US$ 143,3 bilhões, com superávit brasileiro de US$ 26,1 bilhões.

🌉 Três pilares ainda firmes, mas a estrutura começa a mudar

Soja, petróleo e minério de ferro continuam sendo a base absoluta das exportações brasileiras para a China, respondendo por mais de 77% do total.

A soja lidera, com US$ 30 bilhões em vendas no período; a China absorveu 70% dos embarques brasileiros do grão. O petróleo subiu para a segunda posição, com US$ 21,8 bilhões, alta de 49%; a China comprou cerca de metade das exportações brasileiras de petróleo. O minério de ferro ficou em terceiro, com aproximadamente US$ 13,8 bilhões.

A carne bovina seguiu direção oposta. Com a cota anual de importação imposta pela China em 2026, as vendas brasileiras caíram 8,5% em valor. Em setembro, o Brasil esgotou a cota de 1,106 milhão de toneladas; o volume excedente passou a enfrentar sobretaxa de 55% a partir de outubro.

As exportações de carne e miúdos de frango tiveram comportamento inverso: alta de 113% em valor, chegando a US$ 1,15 bilhão, e crescimento de 86% em volume, o maior avanço relativo entre os dez principais produtos vendidos à China.

🏗️ Sorgo, DDG e espodumênio: a “segunda curva” da pauta exportadora

Mais relevante do que o recorde agregado é a mudança na margem da pauta.

Tulio Cariello, diretor de conteúdo e pesquisa do CEBC, destaca o crescimento de sorgo e DDG (grãos secos de destilaria, usados em ração animal). O Brasil exportou cerca de US$ 204 milhões em DDG ao mundo, dos quais 53% tiveram como destino a China; as vendas ao mercado chinês eram praticamente nulas no ano passado e começaram a se concretizar em fevereiro, após o protocolo assinado em maio de 2025. O sorgo obteve acesso ao mercado chinês por meio de acordo fitossanitário bilateral firmado no fim de 2024 e, de janeiro a setembro, as exportações somaram US$ 170 milhões.

“Os embarques de sorgo e DDG são especialmente importantes em um momento em que a China busca diversificar seus fornecedores de produtos para alimentação animal e, ao mesmo tempo, ampliar a produção doméstica.” — Tulio Cariello, diretor de conteúdo e pesquisa do CEBC

O caso mais estratégico é o espodumênio. Ainda fora do top 10, o minério de lítio registrou US$ 172,3 milhões em exportações para a China no período, alta de 339% em relação ao ano anterior. A China comprou 97% de todo o espodumênio exportado pelo Brasil. Em um cenário de demanda crescente por minerais críticos, o Brasil se consolida como elo relevante na cadeia do lítio.

🛗 Veículos eletrificados: a tarifa não apagou a lógica de mercado

No lado das importações, o destaque são os veículos eletrificados.

Em julho, o Brasil elevou a alíquota de importação de veículos eletrificados para 35%. As compras caíram em julho e agosto, mas os embarques chineses rebateram em setembro. No acumulado de janeiro a setembro, as importações de veículos eletrificados originários da China somaram US$ 5,9 bilhões, cerca de 10% do total importado do país asiático.

Para Tulio Cariello, os números de 2026 não refletem apenas uma reação de curto prazo à política tarifária. “A China está realmente construindo um mercado no Brasil, e os dados de emplacamentos de veículos eletrificados comprovam isso.” A expectativa é de crescimento ao menos até o fim do ano.

Herbicidas aparecem como terceiro item entre os principais produtos importados da China. Já os chips de memória chamam atenção pela combinação incomum: o volume importado caiu 11%, mas o valor disparou 237%.

🤝 De commodities à integração produtiva

US$ 143,3 bilhões é um marco. Mas o sinal mais importante para empresas, investidores e empreendedores dos dois países está na estrutura por trás do número.

Soja, petróleo e minério sustentam a base do comércio; sorgo, DDG e espodumênio apontam oportunidades na fronteira entre agro e nova energia; veículos eletrificados empurram a relação para além da compra e venda, na direção de interação em cadeias produtivas.

A próxima janela do comércio Brasil–China muito provavelmente não está no incremento das commodities tradicionais, mas em três frentes que já começam a se desenhar: insumos para alimentação animal, minerais críticos e localização da mobilidade elétrica.

Fonte: Mariana掘金拉美

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