28/09/2026

Quando os caminhões elétricos entram nas rotas de grãos do Brasil: um experimento de logística verde de R$ 500 milhões

Maior compra de caminhões rodoviários elétricos pesados da América Latina é concretizada, adicionando novo capítulo à cooperação econômica e comercial Brasil-China

A Câmara de Comércio de Desenvolvimento Internacional Brasil-China (CCDIBC) acompanha de perto as frentes de cooperação industrial entre o Brasil e a China. Em 14 de setembro, a XCMG Brasil e a Transportadora Navarini assinaram contrato de compra de 251 cavalos mecânicos 100% elétricos modelo E7-95T, em operação estimada em aproximadamente R$ 500 milhões — a maior compra de caminhões rodoviários elétricos pesados já realizada na América Latina. A assinatura ocorreu na sede global da XCMG, em Xuzhou, na China.

Os veículos serão utilizados na logística do agronegócio e no transporte de grãos em longas distâncias, marcando a entrada definitiva da propulsão elétrica no transporte pesado de grãos no Brasil.

🏗️ Dados principais

  • 251 unidades do E7-95T 100% elétrico
  • Aproximadamente R$ 500 milhões em valor total, média de quase R$ 2 milhões por veículo
  • PBT de 74 toneladas / CMT de 120 toneladas, desempenho comparável aos grandes cavalos mecânicos a diesel
  • Baterias LFP de 400 kWh, autonomia média de aproximadamente 200 km
  • Recorde latino-americano em compra de caminhões rodoviários elétricos pesados

Segundo dados do ICCT (International Council on Clean Transportation), as vendas de veículos pesados de zero emissão no Brasil atingiram 1.265 unidades em 2025, um crescimento de 48% em relação a 2024, o maior número desde o início da série histórica. No entanto, os caminhões elétricos representaram apenas 0,4% do total de vendas de caminhões, e a penetração de veículos de zero emissão em caminhões pesados (acima de 15 toneladas) foi de apenas 0,06%. O pedido da XCMG posiciona-se justamente nesse enorme espaço de crescimento.

🛗 Autonomia de 200 km: como viabilizar o transporte de grãos em longas distâncias?

O modal rodoviário responde por cerca de dois terços da movimentação de cargas no Brasil. A safra brasileira de grãos 2025/26 está estimada em 356,3 milhões de toneladas, um recorde histórico. Grandes volumes precisam ser escoados das regiões produtoras para armazéns, terminais ferroviários, indústrias e portos — distâncias longas e cargas pesadas são características fundamentais da logística de grãos no país.

Um caminhão elétrico com autonomia de aproximadamente 200 km dificilmente pode operar com a mesma liberdade de um veículo a diesel. A XCMG informou que, antes da assinatura, as duas empresas estudaram detalhadamente as rotas e o relevo, e realizaram testes com carga real para avaliar autonomia, desempenho com carga máxima e custos operacionais.

Pelos parâmetros do veículo, a frota é mais adequada para operar em rotas fixas planejadas — os caminhões podem recarregar em fazendas, armazéns, terminais ferroviários, portos ou bases de transporte antes de seguir para o próximo trecho. Distância por viagem, inclinação, velocidade média, carga transportada e disponibilidade de carga de retorno afetam diretamente a autonomia. Operações com rotas estáveis, alta quilometragem diária e pontos de recarga definidos tendem a aproveitar melhor a vantagem de custo dos caminhões elétricos.

“Nosso objetivo nunca foi apenas comprar caminhões elétricos. É mudar a cultura do transporte no Brasil e provar que a eletrificação funciona onde ninguém acreditava que funcionaria.” — Luis Fernando Navarini, fundador da Transportadora Navarini

🏠 A cadeia de suprimentos por trás dos 251 veículos

A operação de uma frota tão grande de caminhões pesados não se viabiliza apenas com eletropostos públicos. A localização das estações de recarga, a instalação de transformadores, equipamentos de recarga DC de alta potência e sistemas de gestão de energia precisam ser planejados com antecedência. A frota também precisa organizar a sequência de recarga com base nos horários de saída e no nível de bateria, reduzindo a pressão sobre a rede elétrica.

Este pedido pode impulsionar uma série de demandas complementares:

Primeira categoria — Energia e equipamentos de infraestrutura: equipamentos de recarga DC, transformadores, painéis de média tensão, quadros de distribuição, cabos, sistemas de gestão de energia, além de equipamentos fotovoltaicos e de armazenamento de energia.

Segunda categoria — Serviços de operação de longo prazo: equipamentos de teste de sistemas de alta tensão, componentes de gestão térmica, compressores de ar elétricos, conectores, pneus, software de gestão de frotas, armazéns de peças de reposição e serviços de manutenção.

Vale destacar que o mercado brasileiro de caminhões elétricos deve crescer de US$ 49,8 milhões em 2025 para US$ 165 milhões até 2031, com CAGR de aproximadamente 24,57%. Atualmente, o Brasil conta com cerca de 17.000 eletropostos públicos, e o número de carregadores rápidos cresceu aproximadamente 167% em relação a 2024, mas a expansão da infraestrutura ainda está aquém da adoção de veículos. Para empresas chinesas de equipamentos de recarga, gestão de energia e serviços de operação e manutenção, isso representa tanto um desafio quanto uma oportunidade.

🤝 Novo capítulo verde na cooperação econômica Brasil-China

Por trás deste pedido está o aquecimento contínuo das relações econômicas e comerciais entre o Brasil e a China. Em 2025, o comércio bilateral atingiu o valor recorde de US$ 171 bilhões, um crescimento de 8,2% em relação a 2024, com a China mantendo-se como o maior parceiro comercial do Brasil pelo 17º ano consecutivo. No mesmo ano, o Brasil atraiu US$ 6,1 bilhões em investimentos chineses, um aumento de 45% em relação a 2024. Relatório do Conselho Chinês para a Promoção do Comércio Internacional (CCPIT) mostra que 88,9% das empresas chinesas entrevistadas avaliam positivamente o ambiente de economia verde no Brasil.

O programa MOVER (Mobilidade Verde e Inovação) do governo brasileiro prevê R$ 19 bilhões em incentivos até 2028, incluindo créditos fiscais para pesquisa, desenvolvimento e descarbonização, oferecendo suporte político para a adoção de veículos comerciais elétricos.

A CCDIBC, como ponte central entre os setores público e privado do Brasil e da China, tem se dedicado a promover a cooperação prática entre os dois países nas áreas de economia verde, novas energias e infraestrutura. A concretização deste grande pedido de caminhões elétricos da XCMG é um retrato vivo da evolução da cooperação industrial Brasil-China, do comércio tradicional para a cooperação em tecnologia verde.

Para empresas chinesas interessadas em entrar no mercado brasileiro, este é um momento oportuno. Após a chegada dos equipamentos ao Brasil, questões de certificação, importação, instalação e pós-venda precisam ser resolvidas individualmente. Para frotas localizadas em regiões interioranas como o Mato Grosso, o estoque de peças de reposição e a capacidade de resposta em manutenção são especialmente críticos. Somente identificando os verdadeiros pagadores e decisores e construindo capacidade de serviço localizada é que será possível conquistar posição neste mercado em rápido crescimento.

Os 251 caminhões elétricos já estão a caminho. Agora, o que merece atenção é quando serão entregues, como será construída a infraestrutura de recarga e qual será o custo por quilômetro após o início da operação. Quando esta frota completar com estabilidade uma safra inteira de transporte de grãos, mais pedidos semelhantes deverão surgir em fazendas, minas, portos e grandes empresas de logística do Brasil.

🤝 A CCDIBC fornecerá consultoria de conformidade abrangente e orientação estratégica para as empresas dos dois países.
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